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A Cidade Inteligente começa no básico: por que a tecnologia não resolve o que a gestão ignora
12 de maio de 2026
| Por modonezi
A inovação pública tornou-se uma espécie de “mantra” contemporâneo. Inteligência Artificial, sensores urbanos e governança baseada em dados dominam os congressos e planos de governo. No entanto, há uma pergunta que precede o investimento em software: a tecnologia está chegando para quem mais precisa dela?
Em entrevista recente ao Estadão, Lisiane Lemos, secretária de Inovação do Rio Grande do Sul, trouxe uma dose necessária de realismo: “Ninguém vai pensar em tecnologia e inovação se está passando fome e frio”. Essa frase não é apenas um desabafo social; é um diagnóstico de gestão.
O Brasil vive um paradoxo geográfico e social. De um lado, possuímos polos tecnológicos de excelência e universidades de ponta. De outro, ainda lutamos contra o déficit de saneamento básico, a exclusão digital e o abismo educacional.
Uma cidade verdadeiramente inteligente não é aquela que apenas instala câmeras de última geração, mas aquela que usa o dado para descobrir por que o serviço de saúde não chega à periferia ou por que a escola do bairro X tem índices de evasão tão altos.
A tecnologia como meio, não como vitrine
O erro crônico de muitas gestões é começar pela solução antes de compreender o problema. Compra-se o sistema, anuncia-se a plataforma, mas a operação continua desconectada do território. Quando isso ocorre, a tecnologia vira vitrine eleitoral, não ferramenta de transformação.
Para que a inovação seja efetiva, ela precisa enfrentar as perguntas certas:
- Acessibilidade: O cidadão sem plano de dados consegue usar esse serviço?
- Capacitação: O servidor público na ponta sabe operar a nova ferramenta?
- Viés: O algoritmo está otimizando a cidade para todos ou apenas replicando desigualdades históricas?
Do algoritmo à escuta ativa
Como pontuou Lisiane Lemos, a Inteligência Artificial pode ser um motor de inclusão ou uma barreira de exclusão. Decisões automatizadas sobre crédito, transporte ou educação, se desprovidas de contexto humano, tornam-se mecanismos frios de segregação.
A tecnologia pública exige responsabilidade ética. O dado é fundamental, mas ele não conta a história inteira. A cidade precisa ser percorrida, escutada e compreendida em suas nuances. A inovação real aproxima o poder público das pessoas; ela não o isola atrás de uma tela.
Gestão é método, tecnologia é instrumento
A inovação ganha sentido prático quando:
- Mapeia demandas de zeladoria para priorizar as regiões mais invisíveis.
- Monitora áreas de risco com precisão para salvar vidas em períodos de chuva.
- Cruza dados de saúde e assistência social para identificar famílias em vulnerabilidade extrema antes que a crise se agrave.
O diagnóstico é claro: O futuro das cidades brasileiras não será construído apenas com linhas de código. Ele será erguido com gestão técnica, sensibilidade social e, sobretudo, planejamento.
Nenhuma cidade será verdadeiramente “inteligente” enquanto a tecnologia for usada para mascarar ausências, em vez de solucionar as necessidades mais básicas da sua população. O cidadão deve ser o centro; a inovação, o seu caminho.