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Suécia transforma milhões de toneladas de lixo em energia e ainda importa resíduos de outros países
31 de agosto de 2026
| Por modonezi
Para muitas cidades, o lixo ainda é visto principalmente como um problema de coleta, transporte e destinação. A experiência da Suécia mostra que os resíduos também podem ser tratados como parte de uma estratégia energética e de planejamento urbano.
O país desenvolveu uma ampla estrutura de recuperação energética capaz de transformar resíduos não recicláveis em eletricidade e calor. Hoje, suas usinas de cogeração recebem inclusive lixo de outros países europeus para manter esse sistema funcionando.
Segundo dados do setor energético sueco, aproximadamente 19,5 terawatts-hora são recuperados anualmente a partir de resíduos, energia suficiente para aquecer cerca de 1,47 milhão de residências e fornecer eletricidade para outras 940 mil.
A dimensão desse mercado também chama atenção. Em 2024, a Suécia importou aproximadamente 3,86 milhões de toneladas de resíduos, principalmente de países como Reino Unido, Noruega e Itália.
É uma mudança importante de perspectiva: aquilo que representa custo e passivo ambiental para uma cidade pode, com infraestrutura, tecnologia e planejamento, voltar para a sociedade como energia.
Mas é importante não simplificar essa discussão.
Queimar resíduos não significa eliminar seu impacto ambiental. A incineração também gera emissões de dióxido de carbono, especialmente porque parte significativa dos materiais queimados contém plástico e outros derivados de petróleo. Portanto, recuperação energética não deve substituir políticas de redução do consumo, reutilização e reciclagem.
O ponto interessante do modelo sueco está justamente na estrutura criada ao redor do problema.
Antes de chegar às usinas, existe uma política de gestão de resíduos, separação, reciclagem e aproveitamento energético. O aterro passa a ser uma das últimas alternativas, e não o destino automático de praticamente tudo que a cidade descarta.
Essa discussão é especialmente importante para o Brasil.
Ainda temos municípios enfrentando dificuldades básicas relacionadas à coleta, à destinação adequada dos resíduos e à redução do uso de aterros. Ao mesmo tempo, produzimos enormes volumes de lixo todos os dias.
Não significa que devemos simplesmente copiar o modelo sueco. As condições econômicas, ambientais, territoriais e energéticas são diferentes.
Mas podemos aprender com o princípio.
Uma cidade bem administrada precisa olhar para seus resíduos como parte de um sistema. É preciso perguntar quanto produzimos, quanto conseguimos reciclar, o que pode ser reaproveitado, qual tecnologia faz sentido para cada território e quanto estamos desperdiçando ao simplesmente transportar toneladas de materiais para serem enterradas.
A gestão pública do futuro terá cada vez menos espaço para pensar água, energia, resíduos, mobilidade e meio ambiente de maneira isolada.
No fim, a pergunta talvez não seja apenas onde colocar o lixo que produzimos.
É o que ainda podemos fazer com ele antes de decidir descartá-lo.