Mas existe uma transformação importante acontecendo na maneira de pensar a drenagem urbana: além de conduzir a água, a cidade precisa aumentar sua capacidade de absorver e armazenar parte dela antes que chegue aos córregos e às galerias.
É daí que vem o conceito de cidade-esponja.
Um estudo publicado em 2026 analisou diferentes soluções para a bacia do Rio Aricanduva, na Zona Leste de São Paulo. Os pesquisadores avaliaram alternativas como jardins de chuva, pavimentos permeáveis, cisternas, áreas arborizadas e telhados verdes para entender como essas estruturas podem ajudar a reduzir o escoamento da água das chuvas.
A lógica é simples: fazer com que mais pontos da cidade participem do sistema de drenagem.
Uma praça pode receber um jardim de chuva. Um estacionamento pode utilizar pavimento permeável. Um prédio pode armazenar água em cisternas. Calçadas e canteiros podem ganhar áreas de infiltração. E mais árvores também ajudam a criar superfícies capazes de reter parte dessa água.
Nenhuma dessas soluções, sozinha, substitui uma grande obra. Mas milhares delas espalhadas pelo território podem reduzir a quantidade e, principalmente, a velocidade com que a água chega ao sistema de drenagem.
Não é uma escolha entre grandes obras e pequenas intervenções. O caminho está em fazer as duas coisas trabalharem juntas. São Paulo já oferece exemplos dessa combinação.
Em março de 2026, a cidade possuía 473 jardins de chuva, estruturas projetadas para captar parte da água, diminuir sua velocidade e favorecer a infiltração no solo. A Prefeitura também iniciou a revitalização de 110 dessas estruturas e anunciou a implantação de outras 99.
Ao mesmo tempo, a capital continua investindo em obras tradicionais de maior porte. Na Zona Leste, por exemplo, começaram em 2026 as obras de uma nova rede de galerias na região de Cidade Líder, com investimento de R$ 57,9 milhões para melhorar o escoamento em uma área que sofre historicamente com alagamentos.
Essa combinação mostra como deveria funcionar uma política moderna de drenagem.
Grandes estruturas recebem e direcionam volumes maiores de água. Enquanto isso, jardins de chuva, áreas verdes, cisternas e pisos permeáveis ajudam a segurar parte dessa água antes que ela chegue ao sistema. E os benefícios não ficam restritos aos dias de chuva.
Mais vegetação ajuda a reduzir o calor, melhora a paisagem urbana e contribui para espaços públicos mais agradáveis. Cisternas permitem reaproveitar água. Áreas permeáveis recuperam uma função que nossas cidades perderam ao longo de décadas de impermeabilização. Por isso, falar em cidade-esponja é falar de planejamento.
Cada nova calçada, praça, estacionamento, empreendimento e espaço público pode ser pensado não apenas pelo que ocupa na cidade, mas também pelo papel que pode desempenhar quando começa a chover. Drenagem urbana também pode acontecer na calçada, no estacionamento e no telhado.
As grandes obras continuarão sendo essenciais. O próximo passo é fazer com que toda a cidade ajude essas estruturas a funcionar melhor.
Quanto mais pontos forem capazes de absorver, armazenar ou retardar a água da chuva, mais preparada a cidade estará para enfrentar eventos cada vez mais intensos.