Quando pensamos em saneamento básico, normalmente pensamos em tubulações, estações de tratamento, bombas e reservatórios. Mas uma parte cada vez mais importante dessa infraestrutura não está debaixo da terra. Está nos sistemas digitais que controlam tudo isso.
E os acontecimentos recentes nos Estados Unidos mostram por que as cidades precisam olhar com atenção para esse risco.
No dia 30 de julho de 2026, o FBI e a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos emitiram um alerta após ataques contra sistemas de água e esgoto em pelo menos sete estados. Os invasores conseguiram acessar equipamentos conectados à internet responsáveis pelo controle de partes da operação. Em alguns casos, os ataques provocaram perda de pressão e alagamentos.
Poucos dias depois, reportagens já apontavam ocorrências em pelo menos 12 estados, ampliando a dimensão do alerta sobre a vulnerabilidade dessas estruturas.
Esse problema vai muito além do abastecimento de água.
Semáforos, iluminação pública, câmeras, sensores ambientais, sistemas de drenagem, transporte público e diferentes equipamentos de zeladoria estão cada vez mais conectados.
Isso é positivo. A tecnologia permite acompanhar operações em tempo real, identificar problemas mais rapidamente e tomar decisões com base em dados.
Mas toda conexão cria também um novo ponto que precisa ser protegido.
O próprio órgão de controle do Congresso americano, o GAO, alertou em maio deste ano que a integração entre tecnologias operacionais e dispositivos conectados à internet aumentou a possibilidade de invasores alcançarem equipamentos responsáveis pelo funcionamento físico da infraestrutura, como bombas e válvulas.
Por isso, segurança digital deixou de ser apenas uma preocupação dos departamentos de tecnologia.
Cibersegurança também passou a ser manutenção urbana.
Durante muito tempo, falar em cidade inteligente significava discutir quantos sensores, câmeras, plataformas ou sistemas uma prefeitura conseguia implantar.
A discussão precisa amadurecer.
Não basta perguntar o quanto uma cidade está conectada. Precisamos perguntar também o quanto ela está preparada para continuar funcionando quando essa conexão falha ou é atacada.
Isso exige protocolos de segurança, atualização de equipamentos, controle de acesso, treinamento das equipes, cópias de segurança e planos para manter serviços essenciais funcionando manualmente quando necessário. Entre as recomendações feitas pelo FBI está justamente preservar a capacidade de operar determinados sistemas de forma manual em caso de incidentes digitais.
Em abril, autoridades americanas já haviam alertado que ataques contra sistemas de água podem provocar interrupções no tratamento, danos a equipamentos e riscos para a própria segurança do abastecimento.
É uma mudança importante na forma de pensar a gestão pública.
Construir uma cidade resiliente não significa apenas estar preparada para enchentes, tempestades, apagões ou outros eventos físicos. Significa estar preparada também para ameaças que começam em uma tela, mas podem terminar afetando diretamente a vida nas ruas.
Quanto mais tecnologia incorporamos à gestão urbana, maior precisa ser nossa responsabilidade com a proteção dessa infraestrutura.
Uma cidade inteligente também precisa estar preparada para funcionar quando seus sistemas são atacados.